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Embraer, vendendo esperanças e temendo pelo pior…

O desastre que se abateu sobre a Embraer é, simplesmente, monumental. Tudo deu errado nos últimos cinco anos. Multiplicado por dois. Consciente que sozinha não poderia enfrentar a dobradinha Airbus + Bombardier no território dos aviões médios, e onde era uma das empresas líderes, conformou-se em ser comprada – essa unidade específica – pelo único comprador possível: a Boeing. Pior do que diz o ditado, “quem não tem cão caça com gato, só tinha gato e um único e assim foi”. Jogou-se nos braços da Boeing. E aí, e em paralelo, a Boeing mergulhava na maior crise de sua história. O lamentável e insustentável – no ar – Boeing 737 MAX, a maior aposta da história da empresa, o maior sucesso de encomendas e vendas antes do primeiro voo, e pânico global com os primeiros voos onde dois aviões cheirando a tinta despencaram por erro bisonho de projeto matando todos a bordo. E aí, a compradora da Embraer, que já não vinha bem das pernas mergulhou de cabeça no abismo. E foi então que, para completar a tragédia, a coronacrise que tirou durante muitas semanas todos os aviões do ar, e até hoje, quase 18 meses depois, a maioria continua estacionada. Esse foi o trágico e único noivo encontrado pela Embraer. E não tinha outra alternativa. E deu tudo, absolutamente, tudo errado. Todos os demônios se somaram para conspirar contra a empresa brasileira de aviação, fundada no dia 19 de agosto de 1969, pelo empreendedor e engenheiro aeronáutico brasileiro, Ozires Silva. E agora? Com a pandemia, o cancelamento do negócio com a Boeing, um processo ferrado contra a Boeing numa câmara de arbitragem nos Estados Unidos em que busca ressarcimento geral mais multa pelas centenas de milhões de dólares investidos num negócio cancelado, e a necessidade de retomar e manter funcionando o que vendeu, o negócio da aviação comercial? Em maio do ano passado, a Embraer foi atrás de um profissional experiente e consagrado, para comandar o processo de transição de uma empresa depois de décadas numa determinada direção, para uma empresa sem seu braço principal, sócia minoritária numa nova empresa, organizar o que restou, e construir uma nova estratégia. O escolhido, depois da análise de uma dezena de nomes, foi Francisco Gomes Neto, engenheiro elétrico com mestrado em administração pela FGV, e praticamente uma vida toda dedicada a uma única empresa, a Mann Hummel. De alguma forma, e ao aceitar a proposta, tinha ciência do desafio que o aguardava pela frente. E que era exclusivamente comandar o processo de reinvenção e reposicionamento de uma empresa, da Embraer. Sem a área da aviação comercial. E poucos meses depois de tomar posse como CEO, no dia 22 de abril do ano passado, duas gigantescas porradas mudaram por completo o briefing que recebeu e o desafio que aceitou. A desistência da Boeing, e, a pandemia. Isso posto, mais que natural que neste momento, ele, Francisco, e seus companheiros de Embraer revelem-se absolutamente perdidos. E como não tem cabimento um CEO de uma empresa vir a público e dizer que não sabe exatamente ainda por onde começar a retomada, concedeu entrevistas onde, sem confessar, revela a indecisão que hoje toma conta da empresa brasileira de aviação, a Embraer. Vamos conferir, de forma sintética, o que Francisco Gomes Neto, CEO da Embraer tem dito em sucessivas entrevistas. Sobre se teria sido um erro o negócio com a Boeing – “Não, definitivamente não. Naquele momento era um movimento estratégico importante para as duas empresas. Infelizmente, não deu certo. Assim, vamos continuar reintegrando a área de aviação comercial”. Ou seja, por uma questão de educação, e para não prejudicar os pleitos da Embraer no processo que move contra a Boeing, Gomes Neto preferiu não apontar o dedo. Sobre as perdas da Embraer com o cancelamento unilateral pela Boeing do negócio – “Sim, o processo de separação foi e continua complicado e envolve custos enormes”. Sobre uma empresa, neste momento, com dois sistemas diferentes de gestão – Gomes Neto confirma, e complementa, “Estamos fazendo a reintegração da área comercial de forma inteligente. Onde faz sentido voltar a como éramos assim estamos procedendo. Onde não faz sentido mantemos separado, mas procurando simplificar e aperfeiçoar processos… Não temos plano de vender a aviação comercial, novamente…”. Sobre o futuro – “Vamos focar na aviação comercial e na defesa, mas também diversificar…”. Ou seja, amigos, jamais, nem no pior dos pesadelos, Francisco Gomes Neto imaginou-se pilotando uma empresa que, dois anos atrás, quando foi contratado, só tinha razões de sucessos e esperanças pela frente, com o campo totalmente aberto para um renascimento e reposicionamento gloriosos, e agora, tudo o que faz, é correr atrás, e tentar controlar – impossível apagar – incêndios de dimensões imprevisíveis. Coisas da vida. Acidentes de percurso. Como nos ensinou José Ortega Y Gasset, ensaísta, jornalista, fundador da Escola de Madri, e o que acontece agora com Gomes Neto, “eu sou eu mais as minhas circunstâncias”. Quando aceitou o desafio, eram outras as circunstâncias, e tinha certeza que melhorariam e faria uma gestão histórica no comando da Embraer acelerando em direção ao futuro. Jamais, correndo atrás na tentativa improvável de apagar dois incêndios de dimensões espetaculares. Assim, e tudo o que se consegue depreender das entrevistas de Gomes Neto nos últimos meses é uma frase que repete em todas. Uma espécie de “wishiful thinking” “a Embraer será maior do que foi no passado…”. Lembrando muito uma frase que o ministro Paulo Guedes andou dizendo e agora decidiu silenciar, lembram, “O Brasil vai surpreender o mundo…”. Tomara que as duas frases de efeito se tornem realidade, mas, as possibilidades, são muito próximas de zero.
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Cenas da pandemia, ou, brigando por migalhas

Na falta de passageiros, com aviões parados, e considerando que carga não usa máscara e nem precisa de distanciamento e álcool em gel, as empresas aéreas brasileiras tentaram ganhar algum tempo, enquanto não conseguiam vislumbrar nenhuma outra alternativa. E partiram para a dolorosa decisão de converter aviões magnificamente preparados para o transporte de passageiros, em… Cargueiros. Isso mesmo, aviões de carga! As três – Latam, Gol, Azul – recorreram a esse expediente não como única e derradeira alternativa para melhorar os ganhos, mas e apenas para… Tentar atenuar os prejuízos. A Latam encostou alguns de seus Airbus A321 com capacidade para 220 passageiros, e apenas duas toneladas de carga, e colocou para descansar, e, simultaneamente, reabilitou Boeings 767 com capacidade para até 238 passageiros, mais 20 toneladas de mercadoria. E ainda, transformou um avião maior, um Boeing 777 com capacidade para 379 passageiros, retirando todas as poltronas… Convertendo uma espécie de “joia”, exagerando, claro, numa carroça, ou, “galinheiro”. O mesmo procedimento adotou a Azul. De seus 40 A320, que utilizava para o transporte de passageiros, 12 viraram cargueiros… E a Gol, sem muita margem de manobra pela proibição de retomar os voos como os 737 MAX, procurou oferecer serviços complementares no transporte de animais, e na guarda de mercadorias. Mais ou menos assim. Ou, nem no mais terrível dos pesadelos poderiam imaginar que passariam por essa dor, por esse constrangimento. Sentaram-se numa mesa, choraram todas as lágrimas possíveis, e no momento seguinte entregaram além dos anéis, os dedos das mãos, os dos pés, um dos braços, uma orelha, e a ponta do nariz. Na tentativa lancinante de manterem o negócio vivo. Sem nenhuma perspectiva de verdade, de alguma recuperação consistente, pelos próximos três anos. Em tempos de pandemia, nem mesmo se sorri. Chora-se e lamenta-se. Com maior ou menor intensidade. Nunca, como hoje, expressões desgastadas e típicas de momentos de gravíssimas crises e desespero, tomam conta de toda a cena e são repetidas à exaustão como hoje… Expressões, como: “Derrota é uma bebida amarga apenas para os que se conformam em tomá-la”; Ou, “Mais vale acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão”; Ou, “A coragem e a fé removem montanhas”; Ou, “Coragem é enfrentar, e não permanecer parado fingindo resistência quando o que se tem, mesmo, é medo”; Ou, “Prefiro fabricar e vender lenços a permanecer parado chorando”; Ou, ainda, “Deus ajuda quem cedo madruga”; Ou, “É no momento mais escuro da noite que o sol prepara-se para nascer…”. Cada um dos players das diferentes cadeias de valor e especializações escolheu a sua preferida. Era, ou foi tudo o que tínhamos para os primeiros meses de pandemia. O caos era de tal ordem que ninguém sabia exatamente por onde começar. Muitos acreditaram ter aberto a porta de saída, mas… Estavam mesmo mergulhando mais fundo ainda.