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De como ganhar a vida vendendo medo!

Hoje vamos homenagear um brasileiro que transformou um galinheiro em estúdio e reinou na escuridão das sombras e do sobrenatural pop. Se as pessoas revelam-se ao nascer – são raríssimos os casos – José Mojica Marins é um desses. Chegou ao mundo numa sexta-feira 13, março de 1936. Isso mesmo, sexta, 13! No galinheiro de sua casa, com uma câmera que ganhou de seu pai, fazendo o casting na vizinhança, rodava seus primeiros ensaios cinematográficos. Paupérrimos, mas, verdadeiros. André Barcinski, jornalista, roteirista e diretor de TV, crítico de cinema e música da Folha, que viveu muitos anos e aventuras ao lado de Mojica Marins vai direto ao ponto e diz, “A força e magia das fábulas criadas por Mojica não chegam perto de sua história maior, sua própria vida”. Barcinski conviveu com Mojica durante 35 anos. Viajou com Zé do Caixão pelo mundo, frequentando e cobrindo festivais, e testemunhou cenas inacreditáveis. Com Mojica sendo reverenciado por Paul Schrader (Taxi Driver) por seu filme O Despertar da Besta. Ou alguns roqueiros famosos como Rob Zombie e Johnny Ramone que, literalmente, se ajoelharam diante do Zé. E cineastas de grande curriculum parecendo quase que colegiais na presença do ídolo… Um dia Mojica tem um pesadelo. Ano, 1963. Ele com 27 anos. No sonho, Mojica era arrastado para uma cova com um homem todo de preto e que era ele mesmo… Acorda e decide incorporar o personagem que protagonizou no sonho. Converte-se no coveiro Josefel Zanatas, mais conhecido como Zé do Caixão. Nasce o gênero “horror brasileiro”. Em 2013, quando comemorava os 50 anos de Zé do Caixão, contou ao jornal O Globo que, “O nome Josefel veio de um cara que eu conhecia e que mexia com defuntos, um agente funerário chamado Josef. Zanatas era brincadeira com Satanás…”. A personagem decola no filme de 1963, A Meia Noite Levarei Sua Alma. E ganha corpo e institucionaliza-se na sequência com Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver… Seus filmes de maior sucesso passaram de pouco mais de 1 milhão de ingressos, mas, tornaram-se uma referência na história do cinema brasileiro e mundial. A ideia de Zé do Caixão era completar a trilogia com o filme Encarnação. Mas, além da censura, o filme foi sofrendo percalços pelo caminho. No ano de 1987, o produtor Augusto de Cervantes decide retomar a obra, mas, morre por infecção pulmonar. Na sequência, outro produtor, Ivan Novais chama para si essa missão. Marca um almoço com Zé do Caixão para fechar o contrato. Decide preparar uma peixada para o amigo, sente-se mal durante, e também morre… Finalmente Encarnação é concluída, contando no casting com Jece Valadão. Na última etapa de sua trajetória, Mojica ganhou espaço na televisão, e teve sua obra reconhecida em vida. No Festival de Sundance de 2001, Zé do Caixão mereceu uma retrospectiva de sua obra. E deu seu depoimento: “Estava meio sonolento, entre dormindo e acordado, e foi aí que tudo aconteceu: vi num sonho um vulto me arrastando para um cemitério. Logo ele me deixou em frente a uma lápide, lá havia duas datas, a do meu nascimento e a da minha morte. As pessoas em casa ficaram bastante assustadas, chamaram até um pai-de-santo por achar que eu estava com o diabo no corpo. Acordei aos berros, e naquele momento decidi que faria um filme diferente de tudo que já havia realizado”. José Mojica Marins, deixou sete filhos, doze netos, e uma obra única. E um dos melhores exemplos de muitos dos 50 dos Mandamentos do Marketing. Preferimos relacioná-lo ao mandamento de número 44: Além de Inovar, é Preciso Coragem e Determinação… Coragem e determinação para sobreviver, prosperar e consagrar-se, vendendo um mesmo e único produto: o medo.