Nada desestabiliza mais uma organização, uma equipe, que as confissões de um de seus membros. Se realizadas muito depois, anos/décadas depois, o efeito é praticamente nenhum e existe uma possibilidade concreta de um grande aprendizado. Mais que isso, o entendimento histórico dos acontecimentos. Mas, quando essa manifestação é durante o percurso, o abalo é total. Como no marketing moderno pessoas constituem o capital mais importante de uma organização, porque são os principais tradutores do ESTILO E PERSONALIDADE da empresa e o único não passível de réplica e duplicação, MÁRIO TORÓS, ex-diretor de política monetária do Banco Central do Brasil, em entrevista histórica ao suplemento do jornal VALOR de FIM DE SEMANA, aos jornalistas CRISTIANO ROMERO e ALEX RIBEIRO, desestabilizou a instituição e revelou fatos de extrema gravidade, que colocaram o BRASIL, na crise deflagrada a partir de setembro de 2008, a dois passos do precipício, e muito próximo ao olho do furacão.
- O ESTOPIM – “Às 19h50 do dia 14 de setembro de 2008 TORÓS recebeu um e-mail endereçado a ele e ao presidente HENRIQUE MEIRELLES, enviado pelo diretor de política econômica do BC, MÁRIO MESQUITA. A mensagem era lacônica: - ÚLTIMA DO DOMINGO: BANK OF AMERICA VAI COMPRAR A MERRILL LYNCH, LEHMAN VAI PEDIR FALÊNCIA – TORÓS não tinha mais dúvida de que a crise internacional se aprofundaria e que, no dia seguinte, seria um DEUS NOS ACUDA”;
- O GABINETE DA CRISE – “A intensa troca de informações na noite de 14 de setembro consolidou o gabinete da crise, integrado por MEIRELLES, TORÓS, e MESQUITA” (TORÓS e MESQUITA foram levados para o BANCO CENTRAL por MEIRELLES)”;
- A DEMISSÃO DE MEIRELLES – Em abril, o COPOM (Comitê de Política Monetária) promoveu o primeiro aumento de juros em três anos. A decisão teve péssima repercussão no governo. Na semana seguinte, durante reunião do CONSELHO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, GUIDO MANTEGA, Ministro da Fazenda, afirmara, ‘neoliberal tem medo de crescimento’. Numa audiência com MEIRELLES, LULA criticou o aumento de juros. MEIRELLES começou a dizer a seus assessores que a situação estava ficando insustentável. ‘VAMOS SAIR, NÃO DÁ MAIS’. No Palácio do Planalto crescia a ideia de substituí-lo pelo professor LUIZ GONZAGA BELLUZZO... Sem querer demitir MEIRELLES pura e simplesmente, operou para que o presidente do BC tomasse a iniciativa de sair. Numa conversa reservada, disse a MEIRELLES que ele não deveria fechar as portas de uma carreira política em GOIÁS. O presidente do BC entendeu o conselho como algo positivo, mas levou um susto ao ler num jornal, dias depois, informação atribuída ao Palácio de que teria ido à LULA comunicar sua candidatura ao governo de GOIÁS em 2010... A estratégia funcionou. Num domingo de abril de 2008, MEIRELLES visitou LULA e entregou o cargo. Para sua surpresa LULA virou-se para ele e disse: “ESQUECE ESSE TROÇO, MEIRELLES...”.
- O ATAQUE ESPECULATIVO - No dia 5 de dezembro de 2008, sexta feira, o hedge fund MOORE CAPITAL MANAGEMENT promoveu um ataque especulativo contra o Brasil. Objetivo, elevar o dólar a R$ 3,00, obrigar o BC a queimar parcela expressiva de suas reservas e o hedge fund e seus parceiros na empreitada ganhariam uma fortuna incalculável. “Na segunda-feira, TORÓS assumiu a mesa de câmbio preocupado com a possibilidade de outros fundos montarem posição para derrubar o real – ‘entrei preparado para baixar o cacete’ -. Não foi preciso. A ação do BC na sexta-feira traumatizou muitos operadores de câmbio. O mercado compreendeu que o MOORE fizera uma aposta errada. Cinco dias depois, o fundo zerou suas posições”;
- VOTORANTIM, BANCOS PEQUENOS e UNIBANCO – Sobre a crise do BANCO VOTORANTIM, “na sexta-feira, 10 de outubro, o BANCO VOTORANTIM sofrera pesados saques e, segundo o relato de executivos daquela instituição, não conseguiria fechar o caixa no dia seguinte... dois meses depois o BB comprou metade do VOTORANTIM por R$ 4,2 bilhões... BANCOS PEQUENOS – Na semana seguinte a quebra do LEHMAN BROTHERS... a primeira reação do BC para salvar os bancos pequenos foi a liberação de R$ 13,2 bilhões em compulsórios – ‘Jogamos dinheiro de helicóptero para combater a crise de liquidez’-... UNIBANCO – “O UNIBANCO, vítima de uma corrida bancária originada em suas agências de Brasília, foi comprado pelo ITAÚ...”.
Horas depois, TORÓS foi demitido do BC. A “marolinha”, por questão de milímetros ou segundos, por maior que fossem as reservas brasileiras, não se transformou num vendaval.
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