Nos últimos 15 anos, o mundo virou de ponta cabeça. Claro, em relação como as coisas eram antes. Como nos relacionávamos, como trabalhávamos, como aproveitávamos nosso tempo livre e dos momentos de ócio. Olhar pela janela e ver lá fora fazia parte da rotina das pessoas. E o contato com a natureza, mesmo nas grandes cidades, e dentro do possível, acontecia.
De 15 anos para cá passamos a ir menos vezes a janela, deixamos para trás a forma clássica de se trabalhar, e a cada dia que passa nos concentramos de forma mais intensa num espaço de 40 x 30, ou 35 X 25 cm que é a tela dos desktops -4,6,8, 10 horas por dia -, e, nos intervalos, e horas vagas, muitos ainda reduzem seu campo de visão para 2,5 X 3,0 ou 5,0 X 7,0 cm que são as telas de seus smartphones.
Tudo bem, lá atrás, e ainda hoje, de vez em quando faltava/falta a energia, ou a luz como costumamos dizer, e as pessoas se revelavam irritadas. Mas, em poucos minutos começavam a brincar com a situação, ou, na impossibilidade de fazer outra coisa que não fosse pensar, mergulhavam internamente e se reencontravam.
Esse mundo não existe mais. Ou melhor, existe, nós é que caímos fora dele. Dentre as novas patologias, as primeiras manifestações mesmo antes da internet traduziam-se com a denominação genérica “O COMPUTADOR DEU PAU”. E aí dava vontade de chutar. Permanecíamos estáticos por horas ou por dias, e não sabíamos exatamente como nos comportar.
E aí chegou a internet, mais para frente o comércio eletrônico, os bancos on-line, o e-mail. E, simultaneamente, os vírus. Desenvolvemos um olhar crítico em relação a tudo o que entra pela nossa caixa postal eletrônica que faz martelar em nossa cabeça a pergunta, “abro ou não abro?”. Um dia abrimos de forma equívoca e os vírus tomaram conta do computador. Os menos ofensivos causaram irritação momentânea. Os mais agressivos, perda total dos arquivos e pastas mais programas. A vontade era de matar o autor da crueldade, mas como localizá-lo?
O pior, no entanto, ainda estava por vir. Agora somos totalmente dependentes do deus, do doutor, do sábio, do amigo, do assistente para todos os assuntos, GOOGLE. Veneramos a banda larga. Dependemos de Orkuts, Facebooks, Linkedin... e, mais recentemente não conseguimos viver mais sem o twitter.
Assim, no dia 10 de outubro de 2009, milhões de pessoas em todo o mundo entraram em desespero quando o twitter pifou por algumas horas. Alguns chegaram a considerar a possibilidade de terem morrido mesmo conseguindo se beliscar e ver o rosto no espelho. Os jornais e publicações do dia seguinte noticiavam a patologia: “TWITTER SOFRE PANE E USUÁRIOS FICAM HORAS SEM CONSEGUIR FAZER POSTS”. Lá atrás só quem conseguia fazer postes era a LIGHT e agora todo mundo faz POSTS! E completavam a manchete dizendo “PROBLEMA AFETOU CLIENTES DO MICROBLOG EM TODO O MUNDO, INCLUSIVE NO BRASIL”.
E no texto, que as pessoas que desistiram de mudar para o mundo novo e continuam habitando o mundo convencional se recusam a ler porque não vão entender absolutamente nada, multiplicam-se expressões como, “o blog de status do twitter avisava”, “estamos investigando um problema que faz com que muitos usuários estejam com atraso em seu timeline”, “vamos atualizar o status em breve”, “o post só aparecia horas depois de digitado”, “#whentwitterwasdown”, “o Google foi alvo de ataque dos hackers... a prática é conhecida como pishing”...
Tudo o que você acabou de ler no parágrafo anterior é a patogenia. Se você quer saber qual é a etiologia, considere, modernidade. Mas a fisiopatologia ainda está muito distante mesmo porque, os encantos e prazeres desse mundo novo são de tal ordem que ninguém quer alocar um mínimo de tempo na propedêutica ou semiologia, sem as quais torna-se impossível o prognóstico, a terapêutica e a profilaxia. (este último trecho só consegui escrever com a ajuda inestimável de meu assistente, DR. GOOGLE).
Comentários enviados:
Nome: Sergio Felicio Ribeiro
Email: sribeiro@peoplemais.com.br
UF: SP - Cidade: Sao Paulo
Data: 2009-10-22 14:23:20
Comentário:
Madia, há tempos que venho pensando sobre isso, será que a nossa sociedade do novo mundo plano não se tornou extremamente compulsiva? Acho que todos os twitteiros são compulsivos, viciados em posts e não conseguem sobreviver a uma pane.
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