Na sexta-feira, 30 de janeiro de 2009, JOÃO AUGUSTO CONRADO DO AMARAL GURGEL, o GURGEL da GURGEL, mais seus sonhos, descansaram para sempre. De todas as suas tentativas, não ficou pedra sobre pedra. Mas sua garra, tenacidade, determinação, coragem, desassombro, serão lembrados para sempre. Todas as lições decorrentes de sua trajetória – talvez seu maior legado – constituem referência obrigatória para todos os cursos de empreendedorismo em nosso país. Um marco na história do automóvel no Brasil.
Há pouco mais de 4 anos, sua filha, MARIA CRISTINA, fez um extenso depoimento sobre ele para MÔNICA MANIR no caderno ALIÁS do ESTADÃO. Desse depoimento selecionamos informações relevantes sobre o GURGEL, e a GURGEL.
- “Meu pai sempre foi extremamente ativo, rápido de raciocínio, um gênio para quem o conheceu... Mas, pouco tempo depois da falência da fábrica, passou a se desconectar do mundo. Respondia perguntas de maneira truncada, sem muita lógica. Achamos que era um sinal de depressão, que estava fugindo dos assuntos que o chateavam. Demorou para associarmos esse comportamento ao ALZHEIMER. O pai dele teve e dois irmãos mais novos também manifestaram os sintomas. Estava predestinado à doença...”.
- “Não faz muito tempo vi um filme que mostrava o interior da fábrica da GURGEL deu vontade de chorar. Peças jogadas, vidros quebrados, poças d´água. O lugar era muito organizado, não havia sujeira no chão. Antes de sair os funcionários limpavam tudo. Era como se fosse uma loja...”.
- “Em 21 anos de existência a GURGEL colocou no mercado 40 mil veículos. Passados quase nove anos da falência, resta pouco, e nos cinco barracões: carcaças do Supermini sobre um carrossel, portas do X-12 num canto, moldes sem fibra, pranchetas empoeiradas, mato alto, pernilongos, e num quadro negro, escrito, ‘THIAU, GURGEL DO MEU CORAÇÃO’...”.
- “Em 1991, os governos do CEARÁ e de SÃO PAULO assinaram um protocolo de intenções apoiando o projeto e meu pai passou a investir pesado nisso. Começou a sacar o dinheiro, cerca de US$ 3 milhões, tendo os dois governos como avalistas. Aí, de repente, passaram a não atendê-lo mais dizendo que devia exatamente US$ 3 milhões. CIRO GOMES e FLEURY desistiram do projeto ao mesmo tempo. Por que avalizaram se não tinham a intenção de entrar como sócios? Meu pai não tinha como produzir o carro porque nem sequer tinha acabado de construir a fábrica. Então quebrou...”.
- “Talvez lhe faltasse habilidade política. Teria de ceder à corrupção, ou seja, dar 10% aqui, 20% ali, mas não queria essa moeda de negociação para o resto de sua vida...”.
Ao terminar a matéria, MÔNICA MANIR recorda o episódio lembrado por todos os companheiros de turma de GURGEL, ao apresentar seu trabalho de conclusão do Curso de Engenharia Mecânica-Eletricista na USP: “GURGEL burlou as regras. Em vez do tradicional projeto de guindaste, levou a público o TIÃO, o primeiro automóvel genuinamente brasileiro. Diante de farfalhante gargalhada dos demais alunos, ouviu de seu professor que carro, no Brasil, não se faz, se compra. Ele varou a noite para ganhar o diploma com um trabalho sobre guindaste. E varou a vida atrás do projeto de um carro 100% BR...”.
- “Meu pai era de uma geração que não dividia angústias...”.
Comentários enviados:
Nome: Dalton C. Rocha
Email: daltonagre@uol.com.br
UF: CE - Cidade: Fortaleza
Data: 2010-11-08 18:04:07
Comentário:
Neste site: http://blog.estadao.com.br/blog/jc/?title=adeus_genio&more=1&c=1&tb=1&pb=1#comments tem escrito:"Comentário de: Conhecedor [Visitante] 04.02.09 @ 08:49 É interessante como o Gurgel conseguiu criar essa omo foi. Pelos posts aqui, as pessoas tem a imagem que o Gurgel foi um injustiçado, um empresário espetacular e um homem que não teve nenhum apoio. Repetindo, eu convivi com ele por 40 anos. Não é nada disso. Ele era um engenheiro genial. Disso não há dúvida. Suas soluções técnicas eram apreciadas por todos, incluindo as montadoras. Fora isso, ele foi um empresário lamentável. Gurgel mantinha a famosa casa de hóspedes em seu sítio próximo da fábrica. Aquilo vivia lotado de políticos de todos os tipos, todos muito bem agraciados para garantir vantagens fiscais e financeiras à Gurgel. Nunca houve falta de dinheiro público. O próprio BNDES colocou dinheiro a fundo perdido (FUNDO PERDIDO) para financiar as pesquisas da fábrica. Hoje falam aqui que havia falta de dinheiro público. O Sr. Gurgel prosperou na fase do regime militar, anos 70 e 80, regime este que adorava apoiar empresários brasileiros. O Sr. Gurgel foi um desses empresários. Gurgel não prosperou porque era impossível trabalhar com ele. Ele era extremamente centralizador. Nunca nada o que as pessoas faziam estava certo. Cansei de ver ótimos engenheiros serem contratados e pedirem a conta no mês seguinte porque o Gurgel os tratava mal, não lhes dava liberdade para nada e interferia o tempo todo no que estivessem fazendo. Dessa forma, os bons iam embora e Gurgel ficava cercado de bajuladores e puxa-sacos incompetentes, que era o que de fato o agradava. Não existia custos na Gurgel e não foi feito projeto de viabilidade econômica para o 0800. Se fosse nos dias de hoje, a Gurgel Motores não teria como ter aberto o capital na bolsa. O objetivo do Sr. Gurgel era que o 0800 custasse 60% do preço do Fusca. De onde ele tirou esses 60% ninguém sabe. Era impossível fabricar, com a escala pretendida de 50.000 veículos anuais, algum carro mais barato do que o Fusca. Mas custo não importava ao Sr. Gurgel, apenas a notoriedade. As montadoras gostavam do Sr. Gurgel, ao contrário do que muitos dizem aqui. Ele nunca foi competidor de montadora nenhuma e nem o seria com o carro popular. Todos o consideravam mais um visionário capaz de fazer muita articulação política e incapaz de administrar qualquer empresa. E era isso mesmo. Ele era amigo pessoal do Sr. Wolfgang Sauer, presidente da Volks, que vendia muitos chassis e motores para a Gurgel. Tem muito mais mas chega... vamos deixar Gurgel descansar em paz e os amigos aqui, que acompanharam tudo pela mídia, acreditar que ele foi um gênio injustiçado. Parte de sua família, entretanto, continuará morando nos EUA, onde estão os recursos patrimoniais e onde os processos criminais que correm na justiça brasileira não poderão alcançá-los."
Nome: Sheyna
Email: sheyna.aa@gmail.com
UF: SP - Cidade: São Paulo
Data: 2009-03-18 13:58:45
Comentário:
Emocionante. Não conhecia, mas é emocionante. Vejo semelhança com outras histórias do passado, ligadas a meu pai e conhecidos. Pessoas que não se vendem ou leiloam.
Nome: Emilia Tutae Ogata
Email: emilia@fabraquinteiro.com.br
UF: SP - Cidade: São Paulo
Data: 2009-03-18 11:11:24
Comentário:
Eu tive um BR800 Gurgel e o prazer de, num domingo, receber uma ligação do Dr. Amaral Gurgel. Foi uma conversa inesquecível que validou a minha admiração eterna por ele e pelo seu sonho. Sonho que, de uma forma pequena, tenho orgulho de ter compartilhado.
Nome: Cesar
Email: caesarepartners@gmail.com
UF: SP - Cidade: SP
Data: 2009-03-18 10:37:22
Comentário:
Gurgel cometeu o maior dos pecados na concepção de seus produtos: Desconsiderou as expectativas do mercado. Numa época em que o Fusca perdia fortemente mercado e que o Uno mordia fatias cada vez maiores , conquistando consumidores com seu design avançado á epoca, Gurgel lançou veículos mal acabados, barulhentos, que vibravam bastante, com vidros tipo janela (correm lateralmente e se sobrepõe!!!),e o pior, caros. Gurgel nunca foi um homem de mercado, foi um grande engenheiro, que não sabia que não se compram carros por pragmatismo, mas por status. Deu no que deu...
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