Mba 2009
The World Marketing Place

HI-FI DISCOS FECHA AS PORTAS

Era uma outra São Paulo. A rua Augusta começava a esquentar muito antes mesmo do “descendo a rua Augusta a 120 por hora”. Para se encontrar os últimos sucessos do Hit-Parade americano, o famoso “Make Believe Bal Room”, transmitido a meia-noite do domingo pela então Rádio Cultura de São Paulo era necessário encomendar ao HÉLCIO SERRANO, comissário de bordo que fazia compras em Miami dos sucessos da Bilboard, e depois vendia em sua loja da Augusta 2194. Lá comprei meus primeiros discos dos The Everly Brothers, Del Shanon, Pretenders, The Platters, Brenda Lee, Neil Sedaka, Paul Anka, Pat Boone, Ben E. King. Richie Havens, Janis Joplin, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Elvis Presley, e muitos muitos mais. Inclusive, de um conjunto novo inglês, que se referenciava, ou, tinha como benchmark, os “The Everly Brothers”. Claro, estou me referindo aos Beatles...

Dias atrás o HELCIO resolveu encerrar o seu HI-FI, e por fim a uma época. De certa forma, juntando a vontade que ainda tem de aproveitar os muitos anos de vida que certamente o aguardam, hoje, aos 67 anos de idade, e também reconhecendo que a terrível crise que atravessa a Indústria Fonográfica está muito longe de ter fim. Talvez, mesmo, ainda esteja no começo. Por essa razão, e no sábado, 9 de março, desceu, pela última vez, a porta da última loja HI-FI, e que era a do Shopping Iguatemi de São Paulo. E ao fechar seu HI-FI, colocou um ponto final numa época por ele mesmo iniciada 45 anos atrás.

Antes de se retirar da cena, no entanto, HELCIO concedeu uma última entrevista a revista PEGN, e ao jornalista Lázaro Evair de Souza. Dessa entrevista, algumas preciosidades, sempre presentes, através da visão do HELCIO, naquela que foi uma referência obrigatória, um dos ícones do marketing, do trade da Indústria Fonográfica, a HI-FI Discos:

“Chega uma idade em que você começa a fazer as contas. Estou com 67 e tenho mais x anos de vida. Vou passear. Não quero mais esquentar a cabeça com dinheiro. Mesmo porque já sei quanto o dinheiro vale e para que serve. Por que vou ficar fabricando dinheirinho? Sim, porque hoje em dia, se você não é político ou traficante, só dá para fazer dinheirinho”.

“Quando disse que ia parar ninguém acreditou. Me diziam, “você é muito novo para parar”. É exatamente por isso que eu quero parar...”

“Um negócio que apenas dá dinheiro não basta. A HI-FI foi muito legal enquanto era uma fonte de criatividade, um empreendimento que me permitia comunicar idéias e valores...”

“O que eu vejo por aí são pessoas morrendo de trabalhar. Eu acho que essas pessoas pensam que enquanto estiverem trabalhando estarão comprando um pedaço da eternidade. Parece coisa de Faraó. O cara tem medo de parar. De não saber o que fazer da vida. É porque ele nunca olhou a vida como um conjunto de coisas. Para essas pessoas só existe trabalho e acúmulo de dinheiro.”

Em tempo, 2001 foi o pior ano da Indústria Fonográfica Mundial. Pior é que parece que o poço não tem fim, ou, se preferirem, o buraco não tem fundo...

JUN/2002