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01/02/2012

Marcolino realizou seu grande sonho. Trabalhar no maior grupo cervejeiro do país. Na época tinha 21 para 22 anos, terminara a faculdade, e, de cara, conquistara uma posição na empresa mais ambicionada pelos recém-chegados ao mercado. Mais ambicionada até o dia em que as notícias sobre suas práticas com seus colaboradores, e o relato das primeiras vítimas começassem a chegar ao mercado. A partir daquele momento muitos jovens, agradeciam, davam as costas, e privilegiavam e continuam privilegiando serem felizes.

Foi trabalhar na sessão de logística. No treinamento introdutório ganhou um “rádio”. Não desses de ouvir música, mas de se comunicar. E seu chefe lembrou a ele que jamais deveria desligar o rádio. E assim foi durante os quase dois anos em que trabalhou na empresa. Contratado para trabalhar 8 horas por dia, 40 por semana, e manter o rádio ligado. Em pouco tempo descobriu que trabalhava em horário integral Sem intervalo para almoço, para dormir, para sábados e domingos, para o joguinho de futebol, para o amor com a mulher, para o churrasco/pizza, para ir ao banheiro ou tomar banho. O rádio tocava a todo instante. No caminho da fábrica, no meio da madrugada, na volta para casa: “Marcolino, o caminhão que foi para Diadema ainda não chegou, e o que vinha pegar a carga está atrasado e tem dono de bar reclamando…” Descobriu que ganhava por 8 horas, mas trabalhava 24. E envolveu a família no engodo. 24 horas por dia, 168 por semana, nas 4 ou 5 semanas de cada mês, dos doze meses do ano. Pirou! Não ganhou um rádio, e sim, uma empresa a tiracolo, no bolso, em cima do sofá, no banco do carro.

As notícias de hoje falam que a VOLKSWAGEN da Alemanha acaba de fazer um acordo com todos os seus colaboradores comprometendo-se a não mandar mais nenhum e-mail depois do expediente. Dentre as razões para o acordo a declaração de um representante dos colaboradores: “1.154 empregados sindicalizados das seis fábricas da montadora na Alemanha usam o smartphone que a companhia lhes forneceu e recebem mensagens a todos os momentos”. E os dados submetidos a apreciação do Conselho da empresa: “funcionários que permanecem acessíveis o tempo todo são passíveis de síndromes psicológicas. Esse estresse determinou 10 milhões de dispensas médicas nas corporações da Alemanha apenas em 2010”.

Marcolino pediu demissão, trabalha na área logística de um banco onde é mais respeitado. Recuperou a família, o sono, o banho, o direito de ouvir música no carro, e de não mais fazer suas necessidades básicas sob insuportável tensão. Quase nunca conseguia.

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